sábado, 27 de junho de 2015

Resenha: Dragões de Éter

12:00:00 Escrito por Lucas Rodrigues , , , ,
Imagem por Ingrid Tan
Nova Ether é um mundo protegido por poderosos avatares em forma de fadas-amazonas. Um dia, porém, cansadas das falhas dos seres racionais, algumas delas se voltaram contra as antigas raças. E assim nasce a Era Antiga.

Essa Influência e esse temor sobre a humanidade só têm fim quando Primo Branford, o filho de um moleiro, reúne o que são hoje os heróis mais conhecidos do mundo e lidera a histórica e violenta Caçada de Bruxas.

Primo Branford é hoje o Rei de Arzallum, e por 20 anos saboreia, satisfeito, a paz. Nos últimos anos, entretanto, coisas estranhas começam a acontecer...

Uma menina vê a própria avó ser devorada por um lobo marcado com magia negra. Dois irmãos comem estilhaços de vidro como se fossem passas silvestres e bebem água barrenta como se fosse suco, envolvidos pela magia escura de uma antiga bruxa canibal. O navio do mercenário mais sanguinário do mundo, o mesmo que acreditavam já estar morto e esquecido, retorna dos mares com um obscuro e ainda pior sucessor. E duas sociedades criminosas entram em guerra, dando início a uma intriga que irá mexer em profundos e tristes mistérios da família real.

E mudará o mundo.

Essa acima é a sinopse da orelha do primeiro livro da trilogia Dragões de Éter, Caçadores de Bruxas.

Antes de iniciar, alguns avisos: eu nunca fiz uma resenha literária antes, então espero ter algum sucesso na primeira. Segundo, eu vou analisar a trilogia como um todo. Terceiro, podem haver spoilers, embora eu vá evitá-los ao máximo. Toda a saga se baseia no crescimento dos personagens como pessoas, sua evolução, e por isso quaisquer spoilers podem estragar a experiência. Enfim, vamos lá.

Dragões de Éter é uma trilogia escrita pelo brasileiro Raphael Draccon. É formado pelos livros Caçadores de Bruxas, Corações de Neve e Círculos de Chuva. Cada livro da série tem uma ótima unidade – apesar de eventos do primeiro livro influenciarem até o último, todos eles têm uma história relativamente fechada, contando com suas próprias tramas, subtramas e clímax.

História

Draccon criou seu universo a partir da união de diversas influências. Contos de fadas e outras histórias que passamos nossa vida inteira ouvindo e conhecendo. E ele não faz questão de esconder essas influências. Alias, talvez isso torne a obra tão fantástica. Durante o decorrer da narrativa, ele guia a história para mostrar exatamente qual e a referência daquele trecho. E devo dizer que muitas vezes fui pego de surpresa, entendendo a referencia só nos últimos segundos antes dela se tornar explicita no texto.

Por mais que a série tenha uma grande quantidade de personagens, ela pode ser centrada mais diretamente em quatro figuras: João e Maria Hanson, Ariane Narin, e Axel Branford. Outros grandes personagens, tão importantes e interessantes quanto, surgirão durante a história, mas esses quatro guiam a trama.

Imagem por PaperTales
João e Maria são as crianças que foram presas na casa da bruxa canibal. Esqueça casa de doces aqui – a casa era feita de madeira, tijolos e vidro, e influenciados pela magia, as crianças comeram aquilo como se fossem guloseimas. Os irmãos demonstram um grande companheirismo, chegando ao ponto de guardar segredo do que ocorreu dentro da casa entre si – a história é pública, mas ninguém além deles conhecem os detalhes sinistros.

Ariane Narin é uma garota que fala pelos cotovelos, não pensa duas vezes antes de começar a perguntar, e não se importa em falar a verdade na cara de ninguém. Tenho minhas antipatias com ela graças as gírias usadas em sua fala (a ambientação não é exatamente “medieval”), mas não se pode negar que é uma personagem importante na trama, principalmente para o desenvolvimento de algumas explicações sobre o cenário.

Axel Branford é o segundo príncipe, e como tal, sempre pôde se preocupar mais consigo mesmo. É um rapaz forte e orgulhoso, praticante de pugilismo. Diria talvez que seu desenvolvimento de personagem é um dos mais interessantes de acompanhar, graças ao imenso amadurecimento dele na história.

O cenário em si, além de um mundo de fantasia unindo uma quantidade imensa de clichês muito bem amarrados, também conta com uma mitologia interessante. Nova Ether não tem deuses, mas sim semideuses e o criador, e é sustentada pelo pensamento desses semideuses. Draccon usa essa metalinguagem dentro do texto para – literalmente – inserir o leitor na história de uma forma realmente imersiva.

O final do terceiro livro é aberto. Não como se fosse existir um quarto, mas sim mostrando que a vida de cada um daqueles personagens continua, e os eventos do livro não serão as últimas coisas fantásticas que eles presenciarão. O último capitulo antes do epilogo, inclusive, mostra algo que ocorrerá em um futuro próximo, que foi anunciado durante todos os livros como “pano de fundo” daquele mundo.

Opinião

Eu gostei muito do livro. A forma como o Draccon usou elementos de histórias que todos nós já conhecemos para moldar um mundo novo, e o modo como ele apresenta esse mundo ao leitor, são coisas incríveis. O desenvolvimento dos personagens, da trama e da mitologia própria daquele universo são fluidos, consistentes e nunca deixam de ser interessantes. Eu particularmente não gosto de livros focados em múltiplas tramas, com personagens muito afastados uns dos outros (fato esse que me impede de gostar totalmente de Game of Thrones, embora nem de longe ache-o livro mal escrito) e mesmo assim não me senti cansado de Dragões de Éter quando ele alternava entre os personagens – claro, os “capítulos” do livro são muito menores que os de Game of Thrones.

Mas nem tudo são flores e eu tenho algumas críticas. Eu acho que em alguns momentos as referências passavam um pouco dos limites.

Os cavaleiros de Hellsing, ordem de caçadores de bruxas, tem como lema uma versão parodiada do lema do BOPE de Tropa de Elite. Apenas um exemplo.

Imagem por Michael Kutsche
Isso não realmente atrapalha a leitura, mas é desagradável. Além disso, como citado anteriormente, a própria Ariane é uma personagem pela qual tive certa antipatia. Existem certas gírias entre as crianças e adolescentes nos livros, pré estabelecidas pelo autor durante a história, mas quando essa garota abria a boca, era realmente incomodo, caricato e bem chato de se ler.

Por último, um detalhe relacionado a história em si. Por se tratar de um conto de fadas, em seu final muitos casais são formados. Mas uma coisa que me incomodou foi a diferença entre forças dos sexos. Tirando uma personagem secundária que se tornou heroína de guerra, a maior parte das mulheres fica em um plano muito secundário, de apoio. A maior parte das ações realmente importantes e ativas são tomadas por homens. João Hanson e Axel Branford são personagens que realizaram grandes feitos, além de terminarem com pares românticos. Maria e Ariane, por outro lado, ficaram secundárias nesse ponto, apesar de terem seus papéis na trama.

Ainda assim, é uma trilogia que eu indico para qualquer um que goste de fantasia, contos de fadas, e uma leitura não tão pesada. Draccon tem uma habilidade de escrita magnífica, consegue prender o leitor, fazê-lo ver a cena, e até transportá-lo para dentro da história. Dragões de Éter merece:


Boa semana e até mais.